A herança árabe e os pueblos blancos da Andaluzia

A Andaluzia é a maior região autónoma de Espanha e, talvez por isso, aquela que mais surpresas reserva ao visitante, geralmente atraído por heranças culturais fortes e cidades plenas de história. Percorrê-la de carro, de uma ponta a outra, ao longo de vários dias, é simultaneamente uma constante surpresa e um deleite para os olhos e para a alma. Há grandes cidades na região a transbordar a sua herança histórica árabe pelos poros. Sevilha, Córdoba ou Granada são disso bons exemplos. Mas também há muitas e pequenas localidades caiadas de branco por descobrir, espraiadas ao longo de grandes planícies sem fim, aconchegadas pelo sol durante todo o ano. 

É uma região diferente e singular do resto de Espanha. A herança árabe está muito presente ainda hoje em dia no edificado histórico urbano das principais cidades, principalmente em Granada, fruto da influência do povo do Al-Andaluz, corrido daquelas terras no passado pelos cristãos. E é a mistura dessa influência com os hábitos andaluzes e espanhóis que tornam a região tão única e especial. Que a fazem pulsar e ter uma personalidade tão própria. É fácil lá chegar de Portugal: são cerca de 450 os quilómetros que separam a capital da região, Sevilha, de Lisboa. Um caminho sempre feito por auto-estrada e com dois trajectos possíveis: via Elvas e Badajoz (beneficiando o viajante de não ter de pagar portagem a partir do lado espanhol, barateando a deslocação) ou via Algarve.

Pesquise bem o que quer fazer, o que quer ver, quantos dias pretende tirar para viajar e, sobretudo, quanto se predispõe a gastar. Há milhões de sítios para visitar na Andaluzia, desde grandes cidades históricas a pequenos vilarejos perdidos em nenhures. Parques naturais belíssimos e paisagens de perder a respiração. Não é fácil. Condensar tudo e deixar de fora muito mais é sempre uma escolha muito pessoal. Por isso, o meu itinerário é o meu itinerário. O seu pode ser no todo, parcialmente ou em nada igual ao meu. Uma vez mais: vai do seu gosto pessoal.

Córdoba e Granada eram pontos assentes no roteiro. A Córdoba queria muito regressar (mesmo que pela terceira vez) para ver se esta era a cidade da qual ainda me recordava. E era. A cidade orgulha-se de ter sido uma das capitais da península durante a sua ocupação romana e do Califato dos Omeyas. A maior atracção da cidade continua a ser, sem sombra de dúvidas, a Grande Mesquita, uma obra-prima da arquitectura mundial ainda hoje inultrapassável, que tem dentro de si mesma uma catedral de estilo gótico. A união dos dois estilos arquitectónicos, autorizada pelo imperador Carlos V, pode ser considerada incongruente, mas não deixa de ser simultaneamente esplêndida. Para quem visita a cidade pela primeira vez, é impossível não a conhecer.

Mas era Granada aquela que mais me motivava a voltar à região. É lá que se encontra o complexo de palácios mais famoso em todo o mundo, o Alhambra, a maior atração turística da cidade e o expoente máximo da fusão da arte hispânica com a árabe. Não por acaso, o local é Património Mundial da Unesco. Na sua encosta ainda sobrevive um bairro com sabor tipicamente árabe: o Albaícin. Juntos, ambos constituem o coração da chamada Granada mourisca. E há ainda a Calle de las Teterías, um pequeno souk árabe, repleto de lojas de especiarias e artefactos árabes e casas de chá, em pleno centro da cidade. Uma mistura única.

Os outros dias foram passados a explorar a urbana e movimentada cidade de Málaga, a descobrir os chamados Pueblos Blancos (principalmente as famosas Ronda e Setenil de las Bodegas), a aventurar-me no perigoso e excitante Caminito del Rey e a perder-me nas vistas maravilhosas para o Mediterrâneo e África desde Gibraltar, enclave britânico existente bem no sul de Espanha. Sevilha e Cádiz, infelizmente, ficaram de fora. Como me arrependo dessa decisão… O que vale é que no caminho desde Portugal até Córdoba decidi parar na Extremadura espanhola para perder-me no impressionante conjunto arqueológico romano e árabe de Mérida.

No total foram mais de 2 mil os quilómetros percorridos de carro. As fotografias tiradas são impressionantes. E deixam saudades e lembranças para a vida toda. Começa a partir de agora o relato de uma das viagens mais interessantes que fiz até hoje. E aqui tão pertinho de casa…

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