São Miguel I – roteiro pela costa norte

São Miguel, nos Açores, é um verdadeiro paraíso para aqueles que amam a natureza. A ilha é apenas um dos nove pedaços de terra que a Mãe Natureza nos deixou e que formam este arquipélago português. Em São Miguel, as crateras de vulcões extintos deram origem a enigmáticas lagoas, as montanhas escondem miradouros com vistas estonteantes e toda a costa está recortada por ilhéus, ricos em aves e espécies marinhas. Há verde até onde a vista alcança. E uma sensação de paz imensa. A ilha, cuja história remonta ao séc. XV, quando foi descoberta, tem tido um progresso imenso nos últimos tempos fruto da explosão do turismo. Os europeus descobriram que existe um novo e último paraíso na Terra ainda quase virgem e a convidar a ser explorado. E existe mesmo. A Lagoa das Sete Cidades, situada no extremo noroeste de São Miguel, é o melhor exemplo disso mesmo. E é precisamente de lá que começa o meu roteiro feito de carro, que explora todo o norte da ilha em um dia. É apenas o primeiro de um total de cinco por toda a ilha de São Miguel.

Sete Cidades

A pequena vila das Sete Cidades está localizada no extremo noroeste da ilha de São Miguel, dentro de uma caldeira vulcânica extinta com mais ou menos 5 quilómetros de diâmetro. A povoação tem a seu lado um duplo lago, composto pelas lagoas Verde e Azul, ligadas por um canal pouco profundo. Conhecidas como a Caldeira das Sete Cidades, as duas lagoas em conjunto são o maior lago de água doce dos Açores. Antes de ir conhecer a zona propriamente dita, num dia de sol e sem nevoeiro, sugiro que a comece a explorar a partir do miradouro da Boca do Inferno. Este é o primeiro ponto tradicional de paragem na estrada que liga a cidade de Ponta Delgada e a vila propriamente dita.

Miradouro da Boca do Inferno

Este miradouro oferece algumas das melhores vistas da caldeira das Sete Cidades. Dali poderá observar pelo menos quatro lagoas distintas: a Azul e a Verde, mais ao fundo, a lagoa Rasa, mais próxima e pequena, e, em primeiro plano, a lagoa de Santiago. Do topo deste miradouro já é possível perceber que a calma das águas das lagoas contrasta com as encostas escarpadas de origem vulcânica dando origem a uma paisagem verdadeiramente inesquecível e fascinante. O acesso a este miradouro faz-se a partir de um portão do lado direito da estrada que tem como indicação ‘Lagoa do Canário’. Muitas pessoas optam por deixar o carro aí. Pode, contudo, entrar dentro do portão com o seu veículo automóvel e com ele percorrer cerca de 1 quilómetro até mais próximo do miradouro.

Vista desde o miradouro com a lagoa Rasa à esquerda, a lagoa de Santiago em primeiro plano e a lagoa das Sete Cidades atrás
Vista desde o miradouro com a lagoa de Santiago em primeiro plano e a lagoa das Sete Cidades atrás
A caminho do miradouro

Lagoa do Canário

Quando estiver a deixar o miradouro, não se esqueça que há por ali outra lagoa, de tom esverdeado, escondida, que merece a sua atenção. A lagoa do Canário é pequena quando comparada a outras e a vegetação que a rodeia é luxuriante. Não é visível da estrada principal que liga Ponta Delgada às Sete Cidades.

Panorâmica da Lagoa do Canário

Miradouro Vista do Rei

Se seguir pela estrada principal em direção às Sete Cidades, tem depois a alternativa de prosseguir para o miradouro da Vista do Rei. Trata-se do miradouro mais conhecido em toda a ilha de São Miguel e aquele que lhe permite ver por completo, do alto, a 251 metros de altura, a caldeira das Sete Cidades com as duas lagoas bem à sua frente, lá em baixo. Junto a este miradouro estão as ruínas do hotel Monte Palace, que pode explorar livremente, embora com precaução.

Lagoa das Sete Cidades desde o miradouro da Vista do Rei
Lagoa das Sete Cidades desde o miradouro da Vista do Rei (com o céu praticamente já encoberto)

Ruínas do hotel Monte Palace

As ruínas do hotel Monte Palace, deixado ao abandono desde a sua falência, em 1990, tornaram o local um dos mais extraordinários em Portugal. O projeto inicial hoteleiro era megalómano: cinco pisos em altura, com 83 quartos, 4 suítes de luxo, uma suíte presidencial, dois restaurantes e uma discoteca. Houve ainda a intenção de abrir no hotel um casino, mas a licença nunca foi concedida. Desde o começo, o projeto foi bastante polémico já que se encontrava licenciado em zona protegida e por, alegadamente, desfigurar a paisagem envolvente. O hotel chegou a abrir, em Abril de 1989, com anos de atraso, mas fechou portas apenas um ano e meio depois por prejuízos avultados. Os empreendedores do projeto não contavam que o nevoeiro constante que caracteriza a zona impedisse os hóspedes de verem as lagoas da Sete Cidades assim que acordassem. Muito recentemente, em Outubro de 2017, uma holding vendeu o hotel a empresários asiáticos, que pretendem manter a vocação turística do imóvel. Atualmente, é possível visitar com precaução as ruínas daquilo que ainda sobrou do projeto inicial. Abaixo, segue um vídeo do Youtube sobre o projeto inicial do Monte Palace e, também, fotografias das ruínas da unidade hoteleira, hoje em dia.

Fachada em ruínas do hotel Monte Palace

Caldeira das Sete Cidades

O acesso à pequena vila das Sete Cidades dá-se por uma ponte baixa que atravessa o canal pouco profundo que liga as lagoas Azul e Verde, dentro da caldeira das Sete Cidades. Na verdade, as duas lagoas acabam por formar um lago gigante de mais de 4 metros de comprimento por 2 de largura. A profundidade máxima é de 33 metros. O local é um dos mais fascinantes em toda a ilha de São Miguel. A lagoa está rodeada de campos de cultivo verdejantes, ladeados por escarpas vulcânicas que tornam a paisagem verdadeiramente de sonho. Bucólica mesmo.

Descida para a caldeira das Sete Cidades

Vila das Sete Cidades

Tirando a lagoa das Sete Cidades, não há muitos atrativos na vila propriamente dita. A povoação é muito pequena. A igreja neogótica de São Nicolau, inaugurada em 1852, destaca-se em termos arquitectónicos do resto do conjunto urbano. 

Igreja de São Nicolau
Igreja de São Nicolau

Sugestão: aproveite e pare no restaurante ‘São Nicolau’ para comprar para comer mais tarde as queijadas caseiras que estes confeccionam. Há de vários sabores: inhame, abóbora, laranja, feijão e côco. Todas elas são uma verdadeira delícia.

Queijadas caseiras do restaurante de ‘São Nicolau’

Almoço no restaurante ‘Associação Agrícola’

O restaurante da ‘Associação Agrícola’, já na zona da Ribeira Grande, é conhecido por ter o melhor bife à regional. O prato é tipicamente micaelense e apresenta o melhor que a gastronomia açoreana tem para oferecer: o bife de vaca. Neste prato, o bife é frito e cozinhado com pimenta da terra inteira, alho e molho com vinho. Pela sua fama, convém reservar mesa antecipadamente.

Contactos: 269 490 001 / 926 385 995 para reservas.

Horário do restaurante: aberto todos os dias das 12h às 23h.

Morada: Recinto da feira, campo de Santana – 9600-096 Ribeira Grande

Website oficial: clicar aqui.

Restaurante ‘Associação Agrícola’
O bife à regional

Ribeira Grande

Ribeira Grande é a segunda maior cidade de São Miguel, muito mais pequena do que Ponta Delgada, a maior da ilha. Vale a pena parar rapidamente na povoação para tomar um café após o almoço e desfrutar da arquitetura tipicamente micaelense. As casas de Ribeira Grande foram erguidas em basalto e as suas janelas apresentam-se decoradas de forma original.

O centro da Ribeira Grande é bem pequeno e a maior parte dos pontos de interesse está situada no largo Hintze Ribeiro. O edifício da Câmara Municipal da Ribeira Grande, o teatro Ribeiragrandense, o museu municipal e a igreja do Senhor dos Passos são disso os melhores exemplos. Ali perto, destaque também para a ponte dos 8 Arcos, situada no jardim do Paraíso, que se estende ao longo da ribeira que dá nome à cidade. Caso tenha tempo, aproveite para entrar na igreja Matriz, também conhecida como igreja de Nossa Senhora da Estrela, localizada no largo Gaspar Frutuoso. No interior pode-se visitar o tesouro, com peças de elevado valor histórico, bem como um conjunto de pinturas e talhas importantes.

A cidade é banhada pelo Atlântico pelo que ali poderá aproveitar e relaxar no areal da praia. Se preferir, há ainda um complexo de piscinas mesmo ao lado da praia, cuja entrada é paga. Caso ainda tenha algum tempo, aproveite para visitar o centro de Artes Contemporâneas ‘Arquipélago’. O equipamento está localizado junto a uma das entradas de Ribeira Grande e é uma referência caso queira saber mais sobre a cultura açoreana.

Miradouro de Santa Iria

A caminho das plantações de chá da fábrica Gorreana, a leste de Ribeira Grande, poderá desfrutar das belas paisagens de São Miguel no miradouro de Santa Iria. Dali é possível ver toda a costa norte da ilha, com as suas planícies verdes a acabarem no oceano Atlântico. Dali, em dias em que o sol brilhe intensamente, é possível ver até a cidade de Nordeste, localizada, precisamente, no nordeste da ilha.

Vistas desde o miradouro de Santa Iria
Vistas desde o miradouro de Santa Iria

Lagoa de São Brás

Um pouco antes da fábrica de chá Gorreana encontra-se a pequena lagoa de São Brás. O acesso à lagoa dá-se por um caminho quase de terra batida que se estende ao longo de quase cinco quilómetros desde a estrada principal.

Lagoa de São Brás
Lagoa de São Brás

Fábrica de Chá Gorreana

A Gorreana é a mais antiga plantação de chá da Europa e um produto de destaque ao nível da economia açoreana. O processo atual de colheita e de tratamento do chá é o mesmo utilizado desde 1883, ano em que este negócio de família começou. O chá preto e verde é colhido entre Abril e Setembro, à mão, num processo totalmente isento de químicos, que merece hoje em dia o reconhecimento internacional e a preferência de milhões de consumidores um pouco por toda a Europa. Esta arte de cultivar chá foi introduzida nos Açores em 1874 por dois especialistas chineses. É possível visitar as plantações e a própria fábrica de chá Gorreana e provar o chá ali produzido gratuitamente. As plantações de chá e a fábrica Gorreana estão localizadas na localidade de Gorreana, na Maia, concelho de Ribeira Grande.

Horário de visitas: de 2ª a 6ª feira, das 8h às 20h, e aos fins-de-semana, das 9h às 20h.

Fábrica de chá Gorreana
Panorâmica das plantações de chá Gorreana

Miradouro do Salto da Farinha e Miradouro da Pedra dos Estorninhos

Junto da pequena localidade de Salga estão outros dois miradouros que proporcionam vistas espectaculares do norte de São Miguel. Do primeiro, do Salto da Farinha, é possível ver o mar e uma pequena cascata. Do lado esquerdo do miradouro, parte um caminho que desemboca num outro miradouro mais abaixo, o da Pedra dos Estorninhos. Deste é possível ver as ravinas acentuadas que desembocam no oceano e ainda, cá em baixo, uma pequena e escondida praia de pedra. Este é um bom local para fazer um piquenique e comer algumas das queijadas que comprou nas Sete Cidades.

Vista desde o miradouro da Pedra dos Estorninhos
Miradouro da Pedra dos Estorninhos

Parque Natural da Ribeira dos Caldeirões

O dia já vai longo, mas ainda há espaço para visitar o bonito parque natural da Ribeira dos Caldeirões. Este é um dos locais mais procurados já no município de Nordeste. O parque oferece aos visitantes espectaculares cascatas de águas, cuja calmaria termina num belo lago. A vegetação é profusa e diversa. Ao longo do parque poderá ainda ver diversos moinhos de água, um pequeno museu, as antigas casas dos moleiros (hoje em dia transformadas em lojas de artesanato e turismo), um parque de merendas, um parque infantil e ainda um café. É aqui que se encontra uma das mais belas cascatas dos Açores.

Parque Natural da Ribeira dos Caldeirões

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