Tailândia: dia 6 – explorando Kanchanaburi e o Tiger Temple

A província de Kanchanaburi, na Tailândia, localizada perto de Banguecoque, é  conhecida pela sua beleza cénica. A própria capital da província, também ela com o nome de Kanchanaburi, é um cenário excepcionalmente belo já que está localizada na confluência de dois rios gémeos. Esta beleza natural contrasta com um passado negro recente. Durante a 2.ª Guerra Mundial, os japoneses ocuparam a região ceifando a vida de milhares de prisioneiros de guerra e forçando-os a trabalhos desumanos. A ponte férrea ainda existente na extremidade norte da cidade sobre o rio Kwai é disso o melhor exemplo. E há cemitérios de guerra espalhados um pouco por toda a cidade. Foi por todo este passado recente, e também para visitar o Tiger Kingdom, que decidi tirar um dia para explorar Kanchanaburi. Pelas razões já apresentadas, um misto de sentimentos marcou profundamente esse dia.

Ponte férrea sobre o rio Kwai

Durante a 2.ª Guerra Mundial, os japoneses, como referi anteriormente, invadiram a Tailândia e a região de Kanchanaburi em particular. Nessa altura, o Japão queria construir uma via-férrea de abastecimento entre a Tailândia e a vizinha Birmânia.

Ponte sobre o rio Kwai, Kanchanaburi

Os engenheiros na altura advertiram que os custos da obra seriam imensos e que a construção da ponte não demoraria menos do que cinco anos. Enganaram-se redondamente. O exército japonês ergueu-a pouco depois de um ano à custa do trabalho de dezenas de milhares de prisioneiros de guerra e de trabalhadores forçados. Mais de 26 mil perderam a vida, vítimas de tratamento desumano, subnutrição e doenças várias. Por isso mesmo, a ponte é conhecida por ‘via férrea da morte’.

O comboio ainda circula na ponte sobre o rio Kwai, Kanchanaburi
Eu, Ponte sobre o rio Kwai, Kanchanaburi

A nossa visita à região iniciou-se justamente aí. Construída na extremidade norte da cidade de Kanchanaburi, a ponte é na verdade menos impressionante ao vivo do que quando mostrada em filmes de cinema. A via férrea foi bombardeada em 1945, em plena 2.ª Guerra Mundial, mas sobreviveu e foi posteriormente reconstruída. Ainda hoje em dia é utilizada, podendo a viagem de comboio que por ali passa até ao terminal de Nam Tok ser usada para conhecer as belas paisagens da região.

Zona ribeirinha perto da ponte sobre o rio Kwai, Kanchanaburi

Museu de Guerra JEATH

Levei outro ‘murro no estômago’ quando o guia me levou até ao museu de guerra JEATH. Localizado na Pak Phraek Road, perto da ponte sobre o rio Kwai, o museu é pequeno e consternador.

O espaço museológico é uma reconstrução de um campo de prisioneiros de guerra e ilustra muito bem os horrores passados por estes durante a construção da ‘via férrea da morte’ sobre o rio Kwai. Do espólio fazem parte réplicas de soldados que morreram durante a obra e outros objetos históricos, alguns muito mal conservados.

O museu está aberto diariamente das 08:30 às 16:30. Infelizmente, esqueci-me de tirar fotos do local, pelo que não tenho fotografias que ilustrem o espaço. Falha minha!

Cemitérios de guerra

Um pouco por toda a cidade de Kanchanaburi existem cemitérios de guerra. Testemunhos deste passado negro, ligado à construção da ‘Via Férrea da Morte’. O mais importante cemitério de guerra, pela sua dimensão, está localizado na Saeng Chuto Road.

Entrada no principal cemitério de guerra, Kanchanaburi
Panorâmica do cemitério

Aqui foram enterrados quase 7 mil prisioneiros de guerra, mortos durante a construção da ponte sobre o Rio Kwai. Não há muito a acrescentar. Só o sentimento de tristeza que se apodera de nós quando, pessoalmente, vemos as atrocidades que o ser humano foi capaz de cometer contra um seu semelhante.

Cruz, no centro do cemitério de guerra de Kanchanaburi
As lápides do bem-tratado cemitério de guerra de Kanchanburi

Existe um outro cemitério de guerra, o de Chong-kai, muito visitado igualmente pela sua dimensão. O guia referiu que ali estavam quase mais 2 mil sepulturas. Esse cemitério está localizado na margem oposta do rio Kwai, a sudoeste da cidade.

Tiger Temple

A visita à região de Kanchanaburi contemplava ainda uma ida ao Wat Pa Luangta Bua Yannasampanno, mais conhecido simplesmente por ‘Tiger Temple’. Nem sabia muito bem o que esperar da visita ao templo, tantas tinham sido as coisas negativas que já me haviam contado do local: que os monges drogavam os tigres, que estes estavam mal-nutridos e tratados, entre tantas outras…

Os monges e os tigres no Tiger Temple de Kanchanaburi

Foi, por isso, com muita apreensão que visitei o local. Não com um pé atrás, mas com os dois literalmente. Não era o meu género de atração, para ser sincero. A história do templo começa em 1994. Rapidamente este foi ganhando reputação como um santuário para a vida selvagem. O primeiro tigre, segundo me explicaram, só chegou em 1999. Era uma cria fémea, órfã e estava em péssimas condições. Só sobreviveu graças aos cuidados dos monges que a ajudaram progressivamente a conviver mais docilmente e a habituar-se ao homem. Daí em diante, mais tigres bebes foram sendo resgatados e integrados no ‘Tiger Temple’. Com a melhoria progressiva dos seus habitats, foram se reproduzindo e multiplicando.

Esta era a história oficial. Como os tigres desde pequenos foram habituados a conviver com os monges, não eram, supostamente, selvagens. Eram meio que domesticados. Tinha as minhas dúvidas honestamente, porque domesticar um bicho selvagem por natureza como um tigre parecia-me sinceramente impossível. O Tiger Temple abria todos os dias, a partir do meio-dia e a entrada inicial custava 600 Baht. Era preciso ainda assinar uma declaração em que, em caso de incidentes com os tigres, o templo ficava isento de toda e qualquer responsabilidade sobre os mesmos. Havia imensas atividades de interação entre os tigres e os visitantes.

A passear uma das feras do Tiger Temple de Kanchanaburi
Tiger Temple de Kanchanaburi

Levei um tigre preso por uma trela até ao local onde são tiradas fotografias  e, depois, lá retirámos uma série de fotografias com os bichos. Os tigres não reagiam a nada, dando a ideia de que estavam de facto dopados. A explicação que foi, uma vez mais, dada é que esta espécie animal é extremamente sonolenta durante o período mais quente e solarengo do dia, período esse que coincidia com o tempo de visitação ao templo e de fotografias. Dada a socialização com os humanos desde cedo, os tigres não se sentiam ameaçados, mas sim confortáveis com todas as fotos tiradas.

Este ronronava, literalmente

Havia, contudo, muitas regras a seguir para que a visita corra bem. As ordens eram dadas pelos monges e pelos trabalhadores do templo. Para já, os visitantes tinham de se vestir adequadamente, cobrindo ombros e joelhos porque se tratava, em última instância, de um templo Budista. E depois, havia a questão dos tigres. Como tal, os visitantes não podiam ir vestidos de vermelho ou outro tipo de tonalidades muito coloridas, não podiam usar saias, echarpes ou cachecóis e não podiam vestir roupas que fizessem muito barulho.

Talvez a foto mais ousada do dia, Tiger Temple de Kanchanaburi

Durante o passeio, por exemplo, nunca os visitantes se colocavam à frente dos tigres, mas sim atrás destes ou de lado. E durante o programa de fotos, a mesma coisa, com a particularidade de que quem tirava sempre fotos eram os monges e os trabalhadores do local. Havia ainda programas de alimentação de tigres bebes, cujo pagamento era adicional ao montante já pago para entrar no parque.

Brincando com os mais pequenotes, Tiger Temple de Kanchanaburi

Actualização: O Tiger Temple de Kanchanaburi foi encerrado o ano passado, em 2016, pelas autoridades tailandesas, depois de inúmeros alertas lançados pelas ONG’s. Apesar de as razões não serem conhecidas, fontes afirmaram na altura que os monges retinham os tigres em cativeiro  de forma ilegal, maltratando-os. Havia ainda suspeitas de corrupção e de tráfico ilegal de espécies. Nada disto saiu oficialmente para o público, nem foi confirmado à imprensa.

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